segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O início. A minha trilha










Mauro Cherobim

Em 19 de janeiro de 1956 iniciei o meu serviço militar na Aeronáutica, na Escola de Oficiais Especialistas e de Infantaria de Guarda, conhecida em Curitiba como Base Aérea do Bacacheri. Eu e mais cinco amigos iniciamos um curso de formação de cabo radiotelegrafista auxiliar. Três conheciam rudimentos da radiotelegrafia e três tiveram o primeiro contato com o alfabeto morse no curso. A história começa com Mauro Cherobim, Eiti Suzuki e Oswaldo Gaertner.

Aprendíamos a telegrafia num oscilador e o exame final foi realizado na rede, com ruídos de estáticas, interferências e mais o natural nervosismo. Os três que tinham conhecimentos de radiotelegrafia foram aprovados e promovidos a cabo. Nós três que não logramos aprovação fomos promovidos a soldados de primeira classe (num indecifrável “quadro de manobras”) radiotelegrafista auxiliar (S1 Q MR RT AU).

Os aprovados foram promovidos a cabo (CB) e engajados por dois anos e os promovidos a soldados de 1ª classe (S1) engajados por um ano. Este curso, apesar de ter sido ministrado pela unidade militar a que pertencíamos, preparava operadores para o serviço de proteção ao vôo, ou rotas aéreas, como se costumava se referir e, após formados, passavam a pertencer ao Quartel General da Zona Aérea, hoje Comando Aéreo. Mesmo os radio-telegrafistas que operavam em estações administrativas. Assim, no término do curso fomos transferidos para o Contingente do então Quartel General da 4ª Zona Aérea, na Capital paulista. Chegamos em fevereiro de 1957. O QG localizava-se no Largo Santa Efigênia. Parte desta história foi contada em outro lugar (clique aqui).

Fomos designados para trabalhar no centro de mensagens da estação principal do serviço de proteção ao voo da Quarta Zona Aérea, localizada no Aeroporto de Congonhas. Esta estação era identificada pelo indicativo de chamada ZWSP. Eu e Suzuki treinávamos radiotelegrafia quando trabalhávamos à noite e conseguimos - primeiro Suzuki e depois eu - a fazer parte da escala de operadores radiotelegrafistas junto com os sargentos e alguns cabos. Pelas notícias que tínhamos, fomos os únicos soldados de primeira classe operadores na FAB.

No ano seguinte (1958), eu, Suzuki e Gaertner resolvemos fazer um curso de cabo na Base Aérea de Santos. Os nossos vencimentos como S1 “desarranchado[1]” correspondia a um bom salário da época, almejávamos uma promoção e uma melhoria financeira.

Eu e Suzuki, por sermos operadores, fomos dispensados das aulas de radiotelegrafia e o nosso tempo era ocupado operando na estação rádio da Base Aérea, a ZWST. Foi um estágio complementar a nós dois, onde aprendemos as operações de controle de tráfego aéreo, em fonia. E tomar decisões que antes era tomada pela equipe e pelo dirigente da estação em São Paulo.

Pouco depois da metade do curso abriu um concurso para terceiros sargento radiotelegrafista de terra voluntário especial. Havia falta de radiotelegrafistas, controladores de voo e meteorologistas e para preencher estas vagas o Ministério da Aeronáutica abria estes concursos.

Eu e Suzuki prestamos o concurso e fomos aprovados. Nosso destino não era ser Cabo.

Em janeiro de 1959 fomos incorporados como terceiros sargentos do quadro de radiotelegrafistas de terras voluntários especiais e matriculados n um curso de seis meses na Diretoria de Rotas Aéreas no Rio de Janeiro. Entre radiotelegrafistas, controladores de vôo e meteorologistas, deveríamos ser uns 100 novos sargentos. Éramos profissionais nas áreas que prestamos e o nosso curso era para aprendermos “a ser sargentos”.

Terminado o curso fomos espalhados pelo Brasil. Eu voltei para São Paulo e em seguida (final de junho de 1959) designado para a Estação Rádio de Goiânia. Lá encontrei o Cabo Iwamura, amigo do curso de cabos de Santos. Hoje é médico e está fora da FAB. Seis meses depois fui designado para a estação de aerovias Xavantina (MT), ZWXV, e lá estava o Cabo Galvão, outro amigo do curso de cabos. Um ou dois meses depois Galvão retornou para São Paulo e foi substituído pelo Cabo Tonello, outro amigo do curso, que já passara por Paranã (agora TO) e Paranaguá (PR).

Esta minha passagem por Xavantina marcou o inicio de uma virada da minha vida profissional; foi lá que tomei contato com a Antropologia (clique aqui, onde conto este episódio da minha vida).

No final de fui transferido 1961de Xavantina para o Aeroporto Afonso Pena, em Curitiba,

Em Curitiba terminei o último ano do colegial (Científico) e em seguida entrei para o curso de História Natural (1962), da UFPR, onde havia um curso de Antropologia. No segundo semestre deste ano fui foi fazer um curso de seis meses da Escola de Especialistas de Aeronáutica, em Guaratinguetá para no quadro efetivo de sargentos radiotelegrafistas.

Como o curso de antropologia da UFPR não correspondia aos meus desejos - Antropologia Social - tranquei a matrícula. Nos anos de 1963 e 1964 fiz várias coisas. Consegui levar vários sargentos da Aeronáutica a fazer um curso de eletrônica destinado a oficiais e sargentos da Polícia Militar e depois do curso fui convidado para ser monitor de um curso seguinte.

João Goulart, então Presidente da República, assinou um decreto equiparando o curso da Escola de Especialistas ao segundo grau. O candidato deveria fazer uma de história e uma de geografia. Entrei com a documentação e motivei muitos colegas a fazer o mesmo. O governo que assumiu em 1º de abril de 1964 revogou e nós perdemos a equiparação e os nossos documentos. Os documentos evaporaram no MEC.

Em 1964 requeri para fazer exame para ingressar na Escola de Oficiais Especialistas. Foi indeferido porque havia o entendimento de que eram três anos depois da Escola de Guaratinguetá, mas na lei diz três anos na graduação de sargento.

De requerimento em requerimento contestando o indeferimento cheguei ao Ministro. Era o Brigadeiro Eduardo Gomes. Ele assinou uma portaria regulando aquele artigo, que deveria se entender três anos após a Escola. Contestei afirmando que portaria não podia regulamentar uma lei.

O A2 (Serviço de informações) me chamou e apelou para o meu juízo; recomendaram-me retirar a contestação. Já era o governo militar. Ajuizadamente, retirei.

Em 1965 prestei vestibular e entrei na Escola de Sociologia, Política e Administração Pública, ligada à Universidade Católica do Paraná. Havia o curso de antropologia social.

Em 1966 cursava o segundo ano. Um professor havia chegado de São Paulo onde fizera o mestrado da Escola de Sociologia e Politica de São Paulo. Um dia, conversando com ele, descreveu a Escola. Conclui que uma transferência seria interessante para o meu projeto. Havia outros problemas que recomendavam a minha saída de Curitiba.

Como eu trabalhava na Estação Rádio do Aeroporto, fora da unidade militar, não estava atento a uma série de questões políticas. Antes do golpe de 64 um meu amigo me avisou para tomar cuidado, “que estavam de olho em mim” e que se fosse preso, que ele fosse avisado. Não liguei, imaginando que “ele estivesse variando”.

Este aviso fez-me acender uma luzinha vermelha e me fez notar que nuvens sobre mim estavam escurecendo. Com propensão para formação de cumulus nimbus. Conclui que o meu tempo em Curitiba estava chegando ao final. Meu pai ficou muito triste, mas era melhor ter um filho longe que “não sei onde”. Mas eu não falei os motivos.

O território do Paraná havia passado para a jurisdição da então chamada 5

ª Zona Aérea com se em Porto Alegre. Meu retorno a São Paulo passara a ser uma transferência de Zona Aérea. Ficaria fora do perigo de uma nova transferência em curto prazo. Negociei a minha transferência para a 4ª Zona Aérea. Em dois meses estava em São Paulo e designado para a Estação Rádio do Parque de Aeronáutica (ZWMT).

Parece-me que algumas nuvens negras me acompanharam, pois a seção do pessoal abaixava o meu conceito para o mínimo (3). Já havia perdido o direito à medalha de 10 anos[2], em face de algumas punições exageradas, que me impediam ir além de. Ou seja, não faria o curso para suboficial.

Os conceitos eram subjetivos e por isto serviam para afastar os indesejáveis. É o que hoje é conhecido como assédio moral.

Senti-me sem futuro na Aeronáutica e isto me levou a me dedicar com afinco à Sociologia. Não era o meu objetivo sair da Aeronáutica, pois eu podia exercer a antropologia, sem uma coisa atrapalhar a outra. No entanto, o nome da área a que me dedicava fazia florescer o maniqueísmo político de oficiais e sargentos “revolucionários”[3], uma época da caça às bruxas. Os petistas aparelhados aprenderam bem a lição dos “revolucionários” de então.

Em 1968 terminei o curso de Sociologia e no ano seguinte ingressei no Pós Graduação em Antropologia da USP e neste mesmo ano iniciei as minhas pesquisas juntos aos índios guarani do litoral paulista. Em 1970 iniciei a minha atividade de docência em cursos superiores e em 1972 recebi um convite para dirigir um Campus Avançado do Projeto Rondon em Humaitá, Estado do Amazonas, onde passei o ano de 1973. Em 1982 fiz concurso para a Universidade Estadual Paulista.

Esse ano no Amazonas atrasou a apresentação da minha dissertação de mestrado. Apresentei-a somente em 1981 e em 1991 defendi o doutorado com dados de uma pesquisa desenvolvida no Amazonas. E em 1996 apresentei a minha livre-docência.

Aposentei-me em 1997. E continuo trabalhando.

Poder-se-á dizer: melhorou de vida. Trabalhar em comunicações era algo que fazia com gosto, como acontece com a Antropologia. O que é difícil – e marcante para qualquer um – é de suas expectativas de vida ser interrompida por idiossincrasias políticas.

Isto me levou a dedicar uma parte no meu doutorado para entender a autoridade pessoal (prestígio pessoal) e a autoridade institucional (presa à instituição a que pertence o detentor da autoridade).

Bem, esta foi a minha trajetória.

*****

Eu não me lembro se foi há 10 anos ou pouco mais que recebi um e-mail com uma indagação: Você é o Cherobim da FAB? O e-mail era assinado pelo Tonello.

E foi depois deste encontro que começamos a construir a ideia de encontrar e reunir os amigos do curso de cabo. Foi fácil de encontrar uns. Acho que os mais complicados foram Iwamura e Queija. Sempre chegávamos um pouco depois que Iwamura saíra de onde recebíamos a informação. Quando ao Queija, o nosso Queija era desconhecido de todos os Queijas encontrados. Falta encontrar Cida, viúva do Gaertner.

Graças à pertinácia do Tonello hoje sabemos por onde andam todos os amigos com que compartilhamos o nosso curso de cabos RT AU.

É gratificante saber que hoje, septuagenários, mantemos uma amizade de 52 anos. Tristes e saudosos por aqueles que já partiram; a tristeza é compensada pela presença das suas esposas e de seus filhos. Os filhos são a nossa eternidade.

*****

Descrevi esse meu caminho de vida para que cada um descreva o seu.

Escrever é meio complicado para quem não está acostumado. Apesar de não escrever bem, ou não conseguir escrever como gostaria – que nem sei como seria – eu me ofereço a quem não tiver a facilidade - ou ânimo -, que envie a mim e ao Tonello que nós daremos o jeito de editar e de publicar aqui.

Para terminar:

O almoço em Morretes me deixou muito contente. Fiz tudo para que isto acontecesse. E por dois motivos. O primeiro é que 16 de outubro era o dia centenário de nascimento da minha mãe e eu queria passar este dia em Morretes. O do meu pai foi no dia 14 de agosto. Intimamente ofereci este encontro com amigos em homenagem aos meus pais E quis levar o Aluízio e o Erik para almoçar juntos. Aluízio é meu primo que considero como um irmão mais velho. Erik é um amigo, primo do Aluízio (em Morretes é perigoso falar mal de alguém, pois pode ser parente ou parente de parente), filho do Léo, uma pessoa que eu admirava muito. Segundo é que eu sou bairrista; seria um sacrilégio ir a Curitiba e não comer barreado em Morretes. Mesmo com o temor de Jurema que o barreado viesse cair na sua cabeça.

Espero que tenha compensado o encontro. Para mim foi.



[1] Os militares, e os praças em particular, tinham um desconto nos seus vencimentos para cobrir as despesas de alimentação (rancho) e alojamento. Não sei o nome oficial, mas isto era conhecido como arranchamento. Os que trabalhavam fora das unidades militares não tinham este desconto e eram chamados de “desarranchados”.

[2] Uma medalha de mérito que se recebe a cada década de trabalho, de bronze, de prata e de ouro.

[3] Certa vez aconteceu-me um fato hilário logo que cheguei no Parque de Aeronáutica. Um oficial me perguntou

- você está fazendo um curso de socialismo?

- não. É Sociologia.

- para mim sociologia, socialismo é tudo a mesma coisa. Cursos de subversivos, ele retrucou.

- para saber se um curso é subversivo ou não, precisamos de alguns parâmetros. Um bom parâmetro seria a cassação. Pelo que sabemos, foram cassados mais militares que sociólogos e isto nos diz que as escolas militares são mais subversivas que a de sociologia, o senhor não acha?

E assim terminou a nossa conversa.

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